Lincoln Seragini e outros visionários há anos ministram worskhops e palestras a respeito da inovação por meio do design. Suas falas encantam e agitam públicos diversos, de estudantes a empresários e políticos, mas será que estamos preparados para esta inovação?
O ser humano tem a tendência (ancestral) ao conservadorismo e talvez essa característica seja uma das responsáveis pela nossa brilhante evolução, mas outro vetor dessa evolução foi nossa curiosidade que nos levou a descer das árvores e erguer a cabeça, procurando novos alimentos e possibilidades.
Vivemos esse paradigma até hoje, e o comportamento do consumidor reflete perfeitamente isso. Se perguntado sobre alguma inovação em um produto estabelecido, conhecido e querido, imediatamente esse consumidor vai apresentar uma tendência a rejeitá-lo mostrando esse conservadorismo-límbico. Ficamos confortáveis com uma certa rotina e previsibilidade.
Mas se confrontado com um produto inovador, automaticamente esse mesmo consumidor se mostrará curioso e propenso à experimentação. É natural. De outra maneira não haveria evolução.
Por essas e outras que hoje pela manhã, ao me deparar com uma lista de citações de Steve Jobs (http://tinyurl.com/ycty2yu) uma em especial me chamou a atenção:
“You can’t just ask customers what they want and then try to give that to them. By the time you get it built, they’ll want something new.”
(”Você não pode simplesmente perguntar o que eles querem e então dar a eles. No momento em que você o tiver construido, eles irão querer algo novo”)
Para inovar deve existir o que chamo de “petulância calculada”, aquilo que o consumidor diz querer pode indicar certas tendências, mas deve ser encarado como uma seta numa certa direção, não como um ponto de chegada. Essa petulância calculada é que nos faz pensar em usar materiais nunca antes usados, a pensar abordagens nunca antes exploradas ou pensar produtos totalmente inesperados.
o iMac em 1998 foi uma petulância calculada de Jobs. O Smart é petulância calculada. O 3DO (videogame da década de 1990 que fracassou) foi só petulância. O Windows (cada vez que tenta inovar) é só cálculo.
O Walkman foi petulância calculada. As pessoas quando perguntadas, não queriam andar com um rádio/tocafitas na bolsa (para que carregar esse peso?) Mas o presidente da Sony viu uma tendência nas boas práticas do cooper e achou que poderia ser um produto interessante para este público. Bingo. Sucesso e criação de um novo mercado. Se ele tivesse ouvido apenas o consumidor, nunca teria lançado o produto. Mas se sua petulância não tivesse sido guiada por uma visão aguçada do mercado, também não teria enxergado o nicho.
Nosso diretor Sergio Guardado gosta sempre de citar parte de um poema de Oswlad de Andrade que resume muito bem essa questão:
“— Tudo é tempo e contra-tempo! E o tempo é eterno. Eu sou uma forma vitoriosa do tempo. Em luta seletiva, antropofágica. Com outras formas do tempo: moscas, eletro-éticas, cataclismas, polícias e marimbondos! / Ó criadores das elevações ertificiais do destino eu vos digo! A felicidade do homem é uma felicidade guerreira. Tenho dito. Viva a rapaziada! O gênio é uma longa besteira!”
A genialidade é muitas vezes uma forma de enxergar o mundo de uma maneira diferente dos outros. Não é um clique. Não é uma “sacadinha”. É trabalho árduo, suado. Steve Jobs não fica sentado numa cadeira à brisa californiana esperando as grandes idéias acontecerem, caírem do céu. Ele analisa o mercado fazendo leituras que muitos de nós sequer imaginaríamos. Viva a rapaziada! Viva o trabalho árduo! Oswald está corretíssimo!
O videogame Nintendo NES não passou em pesquisa. O iPod não passou em pesquisa. O Toddy em embalagem de plástico não passou em pesquisa. Mas a petulância calculada de Minoru Arakawa, de Steve Jobs e de Lincoln Seragini fizeram desses produtos sucessos. De público e de crítica.
Isso é inovação. O gênio é uma longa besteira.
Postado por Alan Richard, diretor de criação.
