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Resignificação e redes colaborativas

Um dos grandes vetores para mudanças no design ultimamente passa pela resignificação. A nova definição do termo nos últimos dez anos como “produtor de significados” somente reforça este postulado. O próprio mundo dos serviços passou a segunda metade do século XX e esse comecinho de século XXI partindo de um tecnicismo funcionalista para o mundo das humanidades.

Gosto de citar o exemplo da história dos serviços ligados a informática. Nas décadas de 1950 e 1960 esse serviços eram chamados de “serviços de computação”, nas décadas de 1970 e 1980 passaram a se chamar “processamento de dados” e a partir da década de 1990 nós os chamamos de “tecnologia da informação” ou como eu prefiro “sistemas de informação”.

Saímos de um serviço orientado ao processo (computação), passamos por um serviço orientado ao objeto dos processos (processamento de dados) até chegarmos a um serviço orientado ao produto obtido (a informação) e as relações que ele proporciona. Os novos especialistas de TI muitas vezes nem chegam perto de computadores, mas cuidam das interfaces e em como essa informação processada impacta a vida de seus usuários (ou interatores, num termo mais humanista).

No design estamos vivendo o mesmo processo, o mesmo momento. Como os serviços de informática, o design se resignifica dentro de um paradigma que talvez nem mesmo a pós-modernidade dê conta! Parece que finalmente rompemos a barreira do positivismo funcionalista, da Gestalt, da Bauhaus e da dita “boa forma”.

Até hoje abordávamos o cliente com uma pretensa “resposta de design”, resposta esta dogmática, dentro ainda do ideal positivista. Nós temos que ouvir (negrito duplo na palavra “ouvir”) o cliente e entender seu problema antes de tudo. Focar nas relações humanas desse cliente e oferecer uma oportunidade colaborativa para que ele ajude a construir essa resposta.

Não nos parece mais haver respostas que não passem pela colaboração ativa desse cliente. Não faz mais sentido nenhum pegar um briefing, nos fecharmos em nosso mundinho e voltar ao cliente com uma “resposta”. É quase arrogante de nossa parte.

Não me entendam mal, não falo que o ciente deva sentar no estúdio como um papagaio de pirata fazendo o famoso “design flanelinha”. Não! Mas ele deve participar de brainstormings, das apresentações internas, de algumas tomadas de decisão de design, filtragem de informação. A resposta deve ser construída, não tirada da cartola.

E quem disse que esta resposta está sempre no “design” clássico? O cliente pede uma identidade e pode descborir que a resposta para seu problema está na arquitetura. Pode pedir uma linha de embalagens e descobrir que sua resposta esta num programa de branding. Ou num treinamento de RH, ou num filme institucional, sei lá!

Parafraseando nosso Sérgio Guardado, diretor da Sutil Design Research Lab, que por sua vez parafrasea nosso amigo e parceiro Jaime Troiano: “quando se tem um martelo na mão, tudo vira prego”. Isso é a síntese dos limites que temos visto no design até agora. E ninguém melhor que os profissionais de design (e comunicação) para vencer esse desafio.

Esta é a resignificação do que entedemos por design, o designer não mais só desenha, ou só projeta. Nosso diretor Alfredo Farné gosta de definir que “o designer é um expert em ciências confusas”. E é assim que deve ser!

São novos tempos!

Um exemplo prático. A palavra trânsito, que significa segundo o Houaiss “movimento de veículos em determinada área” e “passagem de um estado ou situação a outro”, hoje em dia significa exatamente o contrário, significa “estar parado”, imóvel. A palavra foi resignificada.

Os profissionais de marketing (cuja palavra tem origem na palavra “mercado”) sempre se preocuparam em vender, cuidar do mercado. Essa área vai ter de se resignificar e atender as relações humanas envolvidas na experiência dos produtos e serviços. A publicidade está presa num paradigma parecido. Procurando um novo significado. O que significa ser público num mundo onde todos são potenciais “broadcasters”? A publicidade perdeu um pouco de seu charme e está perdendo seus clientes.

As melhores soluções de comunicação hoje em dia advém das redes rizomáticas formadas organicamente por grupos como a TV1 (www.tv1.com.br). Experts trabalhando em empresas independentes e articuladas conforme o problema do cliente. As empresas de comunicação (design incluido) já sabem fazer isso desde o berço, essa é a nossa real especialidade: formar redes colaborativas em torno de problemas.
Procuramos trabalhar assim dentro da Seragini. Não acreditamos em respostas prontas. Não conseguimos mais encontrar essaas respostas sem a ajuda do cliente. Tudo é construído. Não estamos em nenhum pedestal e não somos sacerdotes de nenhuma magia negra. Somos uma rede de expert nessas ciências confusas da comunicação e do design e vamos atrás da solução do problema do cliente esteja onde estiver! É a nossa motivação.

Acho que assim fica claro como resignificação, rede colaborativa e relações humanas são os termos aos quais devemos prestar atenção.

Artigo escrito por: Alan Richard da Luz

Para mais informação:

Vilém Flusser – “O mundo codificado” (Cosac Naify)

Giles Lipovetsky – “O império do efêmero” (Publifolha)

Lev Manovich – “The Language of New Media” (MIT Press)

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